29
de
maio
Uma dica: leia Clarice

Meus queridos filhos, amigos, leitores assíduos, passantes virtuais, … Por um acaso estão perdidos sem saber ou ter o que fazer?
Façam como eu: leiam Clarice.
" …sentou-se para descansar…
…sentou-se para descansar e em breve fazia de conta que ela era uma mulher azul porque o crepúsculo mais tarde talvez fosse azul, faz de conta que fiava com fios de ouro as sensações, faz de conta que a infância era hoje e prateada de brinquedos, faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava morrer de saudade, faz de conta que estava deitada na palma transparente da mão de Deus, não Lóri mas o seu nome secreto que ela por enquanto ainda não podia usufruir, faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que ela era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua pois ela era lunar, faz de conta que ela fechasse os olhos e seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos de gratidão, faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta, faz de conta que se descontraía o peito e uma luz douradíssima e leve a guiava por uma floresta de açudes mudos e de tranqüilas mortalidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro ¿pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver…"
(Clarice Lispector: Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres)
Então, não vale a pena preencher o nosso tempo lendo Clarice?
O negócio é mergulhar na leitura e fazer de conta que a vida é um eterno faz de contas.
É fazer de conta que cada palavra lida, seja uma gotinha homeopática que nos leva ao crescimento de nosso saber.
É fazer de conta que somos poderosos, pondendo assim, modificar sempre o nosso viver.
Façam como Lóri, personagem desta obra de Clarice, e coloquem como seu grande desafio de vida, aprender a amar e a ser você mesmo. Que encontrem sempre um anjo ( Ulisses), e que ele seja o seu farol indicando onde estão os perigos e o caminho correto para a aprendizagem do amor e da vida.
E assim, "não só nossos olhos permanecerão secos como também nossa alma".
Um abraço e bom fim de semana!



